Chegada de Lô Borges ao fim do caminho com álbum póstumo ‘A estrada’ soa coerente com a trajetória do artista

0
7

Lô Borges (1952 – 2025) tem o álbum póstumo ‘A estrada’ lançado hoje, quarta-feira, 10 de junho
Flávio Charchar / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: A estrada
Artista: Lô Borges
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Em 2023, quando Lô Borges e Márcio Borges idealizaram o álbum “A estrada” como o ponto final da parceria projetada na década de 1970 com standards como “Tudo que você podia ser” (1972) e “Um girassol da cor de seu cabelo” (1972), os irmãos mineiros certamente jamais imaginaram que o disco representaria de fato o fim em todos os sentidos.
Salomão Borges Filho (10 de janeiro de 1952 – 2 de novembro de 2025) partiu inesperadamente no ano passado, aos 73 anos, mas teve tempo de aprontar o álbum “A estrada”, lançado hoje, quarta-feira, 10 de junho, sem a presença física do cantor, compositor e multi-instrumentista imortalizado na música brasileira como Lô Borges. Ou simplesmente Lô.
Como já sinalizara o single “Campo Alegre KM 500 mil”, lançado em 29 de maio como inapropriada primeira amostra do disco editado pela gravadora Deck, o álbum “A estrada” oferece uma entressafra de canções autorais do artista, mas com belos momentos e com músicas que soam incrivelmente premonitórias entre as dez faixas.
“Finalmente eu cheguei / Onde quero estar / Completei o prometido / Cumpri a missão / E vou em paz ”, reflete Lô em versos da canção “Última parada”.
Sim, além de atestar o cumprimento da missão do artista, o álbum “A estrada” mostra que Lô Borges chegou com dignidade e coerência ao fim do caminho, sem querer impressionar ou inventar moda (embora tenha até uma moda de viola na safra…).
Há grandes lampejos de inspiração ao longo do repertório. Das 10 músicas, “Pousada” é a que sobressai de cara na abertura do álbum com melodia que se insinua sedutora com o DNA típico de Lô.
Contudo, a interiorana “Chegada” – faixa de arquitetura sertaneja alocada estrategicamente ao fim do álbum – também se destaca pela beleza e por soar inusitada na discografia do artista. Primeiramente pelo fato de tangenciar o formato tradicional de moda de viola do cancioneiro caipira do Brasil rural, com Tavinho Moura tocando viola de dez cordas e terçando vozes com Lô no canto dos versos escritos pelo próprio Lô Borges, letrista bissexto.
“Eu nasci naquela rua e nela vivi / Depois disso veio a estrada / E nela segui / São seis horas da manhã / O sol já nasceu / Aprendendo a respirar / No nosso planeta / Blue” / A canção chegou na frente / E então eu nasci/ São seis horas da manhã / Janeiro choveu / Vou seguindo aquela estrada / E nela estou / São lembranças da chegada no nosso planeta / Blue”, entoam Lô e Tavinho, como dois cantadores do sertão.
Boa parte das canções vem envolta em atmosfera folk, como “Sem saída”, outro destaque do álbum gravado em Belo Horizonte (MG) em 2025 com produção musical orquestrada por Lô com os músicos Henrique Matheus (guitarra) e Thiago Corrêa (baixo e teclados). “Sem saída” tem evocação instrumental de “Here comes the sun” (John Lennon e Paul McCartney, 1969), porque Lô foi um eterno garoto amantes dos Beatles, e carrega a boa sensação de déjà vu na obra do artista.
“Sem saída” é uma das músicas que falam literal e metaforicamente de estrada, dando sentido conceitual a álbum sobre caminhos físicos e existenciais, como já revelam os títulos de músicas como “Travessia do deserto”, “18 rodas” e “Um velho sentado na beira da estrada”.
Com os toques da percussão de Marcos Suzano e da bateria de Robinson Matos, o álbum “A estrada” é o terceiro álbum da discografia de Lô Borges calcado na parceria do artista com o irmão Márcio Borges. Só que, diferentemente dos antecessores “Harmonia” (2007) e “Muito além do fim” (2021), “A estrada” representa de fato o fim. Um fim atingido com a integridade e a nobreza que caracterizaram Salomão Borges Filho na caminhada pela estrada da vida, sempre com devoção à música que regeu a existência do artista.
Capa do álbum ‘A estrada’, de Lô Borges
Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento