Mulheres contam que já tiveram que escolher entre comprar comida e absorvente: ‘A fome dói’

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Pobreza menstrual afeta mulheres no Tocantins; veja histórias. Meninas se juntaram para arrecadar absorventes e doar a mulheres em vulnerabilidade social. Quase 30% das mulheres não têm condição de comprar absorvente durante período menstrual
Cristina Lopes, de 35 anos, mora em uma das regiões mais carentes de Palmas, a Capadócia. Ela conta que já precisou escolher entre comprar absorvente e comida para a família: “A fome dói”, diz. A dona de casa faz parte do grupo de mulheres que vivem ou já viveram a chamada pobreza menstrual. O termo engloba quem não tem acesso a agua, infraestrutura, informação e itens básicos, durante o período menstrual.
“A gente não pode tirar o pão da boca do filho da gente para poder comprar absorvente. Na realidade, a fome dói. A gente vê um filho da gente chorando por falta de um alimento e a gente ter aquele dinheiro, a menstruação a gente supre com outra coisa, com forrinho, um papel higiênico”.
A empresária Cleide Rodrigues lembra que também já vivenciou situações semelhantes durante a adolescência. A moradora de Gurupi diz que a mãe, abandonada pelo marido, não tinha condições de comprar absorventes para as filhas.
Moradora de Palmas fala sobre dificuldades financeiras para comprar absorventes
Reprodução/TV Anhanguera
“Fui criada praticamente só com mãe, meu pai nos abandonou aos 3 anos de idade, minha mãe teve seis filhos, dos quais dois eram meninos e quatro, meninas. Então, era muita menina para ela comprar absorvente, mas ela não tinha condição. Ela lavava roupas para os outros, posteriormente, arrumou um serviço de auxiliar de serviços gerais em uma escola. O salário era muito pouco, não era suficiente para comprar absorventes”, comenta.
Para ajudar mulheres nessa situação, voluntárias do coletivo Girl Up, em Palmas, se juntaram para arrecadar absorventes. A intenção é doar a famílias carentes da capital.
“Tudo o que tem a ver ao mundo feminino e problemas que mulheres passam, a gente faz ação para ajudar. Então, a gente iniciou essa campanha de absorventes, onde a gente está arrecadando e vai doar para meninas que sofrem com esse problema. Meninas faltam aulas porque não terem absorvente em casa. Foi através do ‘Girl Up’ que eu tive esse conhecimento, como menina eu deveria fazer algo para ajudar”, comenta a presidente do Girl Up em Palmas, Amanda Amorim.
Os absorventes serão colocados em cestas básicas. Assim, poderão chegar a muitas famílias da capital.
Em uma rápida pesquisa pelas farmácias, a equipe de reportagem encontrou absorventes de oito unidades sendo vendidos a R$ 4. Mas, em média, o valor pode chegar a R$ 10. Considerando que as mulheres usam mais de um pacote durante o período menstrual, o valor por ano é alto, R$ 240.
O problema afeta mulheres livres e presas. No livro ‘presos que menstrual’, a jornalista Nana Queiroz, descreve que nas poucas prisões brasileiras onde absorventes são distribuídos, o máximo é um pacote com oito unidades, por detenta.
A advogada da Comissão dos Direitos Humanos da OAB, Maria Lúcia Soares, disse que durante vistorias nunca ouviu reclamações de presas no Tocantins sob esse aspecto. Mas, que em geral, o ambiente dos presídios, não oferece boas condições.
“A gente sabe que nos presídios, às vezes, o preso tem dificuldades para obter uma água em boas condições para usar. Agora, você imagina o absorvente, que ele precisa ser comprado e levado para a unidade prisional”, argumentou.
A Secretaria Estadual de Cidadania e Justiça informou que a gestão criou na Superintendência de Administração dos Sistemas Penitenciário e Prisional do Tocantins um setor que cuida de toda logística e do controle da assistência material às pessoas privadas de liberdade no Tocantins.
Disse ainda que está em dia com a entrega desses itens às 134 custodiadas das Unidades Penais Feminina de Babaçulândia, Lajeado, Palmas, Pedro Afonso e Talismã, que integram as oito regiões operacionais administrativas do sistema penal.
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Fonte: G1 Tocantins